Dr. Iversen Ferrante Boscoli
  CRM: 85374 - SP Médico pela Universidade Federal do Paraná
  Cirurgião Plástico pela UNIFESP - Escola Paulista de Medicina
  Av. John Kennedy, 876 Jardim das Nações Taubaté - SP

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“Face Off”

Quando assisti “Face Off”, que no Brasil recebeu o título “A outra Face”, me diverti muito com os absurdos do Filme.

O filme estreou em 1997 e mostra uma trama onde John Travolta e Nicolas Cage são submetidos a uma cirurgia, com a utilização de um LASER, que permite que a Face dos dois sejam removidas e colocadas novamente no “lugar” permitindo que haja a troca completa de identidade dos personagens interpretados pelos atores. Um “dispositivo” completa o disfarce permitindo uma modulação da voz de forma que a transformação é completa fazendo com que Nicolas Cage um terrorista se transforme em John Travolta um policial. Desta forma mocinho e bandido trocam de papeis graças a tecnologia.

A ficção neste caso nem passou perto da realidade atual. Nem mesmo de uma realidade futura mesmo que remota. Um dia poderemos ser capazes de conseguir fazer um transplante de face total bem sucedido, mas as implicações deste processo, em termos de Saúde podem ser tão desastrosas para o paciente que é bem mais provável que nunca seja possível conseguir este feito. Não há como burlarmos a biologia do corpo humano, seria preciso mudar toda a estrutura biológica do ser humano antes de se conseguir uma cirurgia deste tipo com um sucesso absoluto.

O transplante de tecidos implica em reações inflamatórias do nosso organismo que são causadoras da conhecida Rejeição. Para contornar este fato na realização de transplantes é preciso o uso de Imunossupressores que impedem que o organismo do receptor rejeite o tecido doado. Quando se transplanta um Rim, por exemplo, temos no receptor apenas um tipo de tecido estranho, o tecido renal, e o corpo receptor reage a este de forma que pode-se controlar o nível desta reação evitando que o órgão seja rejeitado. Quando se transplanta uma estrutura como uma mão, ou uma face completa, existem mais de um tecido envolvido. Teremos músculo, pele, gordura, cartilagens e ossos, e cada um destes tipos de tecidos compostos por diversos tipos de células vão causar uma reação diferente. Para se controlar esta reação evitando a rejeição, seria preciso conseguir uma imunossupressão completa do receptor e isto levaria a uma debilidade imune tão grande quanto a de um paciente com AIDS e provavelmente seria a causa de sua morte.

Mas tirando as teorias e embasamentos das técnicas de transplantes, existem pessoas que acreditam que o que é mostrado na ficção possa ser uma verdade. É muito comum vermos pessoas que desejam, ou acreditam que seja possível, com a realização de uma cirurgia plástica ficarem iguais a uma outra pessoa, mudar completamente sua aparência ou voltar a ter as mesmas características que possuía aos 14 anos de idade.

Apesar de todos os avanços da Cirurgia Plástica, de todos os conhecimentos técnicos que temos hoje em dia ainda não é possível obter este tipo de resultado.

É incrível o número de pessoas que ficam atônitas quando descobrem que cirurgia plástica deixa cicatrizes. “Mas não é Cirurgia Plástica!” é o que ouço quando estou discutindo com um paciente sobre o resultado final de um tratamento e abordo o fato da necessidade do paciente se conscientizar que terá que conviver pelo resto de sua vida com uma cicatriz, que muitas vezes poderá lhe incomodar tanto quanto ou até mais que o problema inicial que o levou a procurar por uma Cirurgia Plástica. Antes de realizar uma cirurgia, de mama por exemplo, é preciso que a paciente pondere se o problema que a levou buscar uma Mamoplastia é realmente uma situação que valha a pena ser trocada pela presença de cicatrizes na mama, as vezes não é o caso. Muitas pacientes possuem mamas perfeitas e por serem um pouco grandes querem diminuir seu tamanho e ao fazer isto acabam ficando incomodadas com a cicatriz final de tal maneira que a mama volumosa incomodava menos que a cicatriz, causando arrependimento frente ao procedimento de Mamoplastia e com conseqüências para o bem estar da paciente, uma vez que as cicatrizes são definitivas e irreversíveis.

Alguns casos são ainda mais graves. Um paciente que possua uma grande cicatriz, uma seqüela de queimadura, por exemplo, sempre acredita que o Cirurgião Plástico seja capaz de remover a cicatriz, de apagá-la de forma que ela deixe de existir sem deixar qualquer vestígio. Geralmente o nível de frustração destes pacientes é muito grande quando são informados que a realidade é diferente da ficção e que este desejo não pode ser realizado.

Mas isto não é culpa dos pacientes, não é desinformação.

Na minha opinião a ficção começa a ser confundida com a realidade pelo excesso de informações que hoje em dia está ao alcance de todos.

Como podemos crer que a cirurgia do “Face Off” não seja possível?

Todos sabemos que LASER existe e é utilizado em medicina. Todos já viram ou ouviram alguém dizer que uma “cirurgia a LASER” é bem melhor que uma cirurgia convencional, sem contar nos anúncios, matérias de revistas e jornais falando dos benefícios do uso do LASER em cirurgias. Então porque não dá para fazer a cirurgia a laser?

E os produtos mais modernos do mercado que rejuvenescem uma pessoa sem que seja preciso cirurgia? Os cremes milagrosos que tratam estrias e celulites? A nova técnica de Lipoaspiração, o Botox, o Fio Russo e tudo mais? As máquinas modernas que diminuem a cintura e fazem a gordura sair pela Urina? Como que Cirurgia Plástica pode deixar cicatriz se tem um médico que faz mamoplastia sem cicatrizes, eu até li isto na revista!

E tudo mais.

O que existe na verdade é um grande número de informações não verdadeiras do ponto de vista científico que visam vender alguma coisa ou algum serviço. Geralmente os anunciados acabam vendendo muito, pois as pessoas acreditam que o que lhes é prometido com seu uso possa ser conseguido. Com o passar de algum tempo quem fez seu uso percebe que não há verdade no prometido pelo produto ou serviço e estes caem em descrédito, mas, logo em seguida um novo é lançado no mercado, um novo serviço é anunciado, uma nova técnica “é criada” e novamente todos são induzidos a fazer uso até que novamente a verdade vem a tona e o ciclo novamente se repete.

Assim, é preciso saber que nosso corpo é nosso limite. Nossa Biologia não pode ser mudada. Temos limites que mesmo a mais moderna ciência não pode ultrapassar. Não há como conseguir milagres. Também devemos levar em consideração que muitos produtos e serviços não são capazes de produzir o efeito prometido pois não há eficácia no seu uso ou mesmo esta não pode ser comprovada. Novas Técnicas para tratamento surgem diariamente mas nem sempre significa que o antigo é pior, pois na maioria das vezes o antigo é o que já está consagrado como realmente eficaz, o que pode não ser verdade em relação ao “novo”.

É preciso que as informações sejam questionadas e não simplesmente aceitas como uma verdade. É preciso questionar a fonte destas informações, uma publicação do tipo “Matéria paga” nem sempre é científica e geralmente visa vender um produto ou um serviço.

Uma vez fui visitado por um representante de uma Máquina utilizada para tratamento de gordura localizada. O representante ficou um bom tempo me explicando como a máquina funcionava e sua capacidade de reduzir medidas numa única aplicação. Segundo ele com uma única aplicação poderíamos reduzir de 2 a 3 cm de diâmetro nas dimensões da área submetida ao tratamento. Seria como perder 2 a 3 cm de cintura numa única seção onde a única coisa que é preciso fazer é permanecer deitado enquanto um técnico ou médico faz uso do equipamento. Seria algo excelente, até eu me empolgaria frente a uma possibilidade desta. Como seria mais fácil reduzir o diâmetro corporal de algum paciente sem ter que ficar fazendo força por horas no comando de uma cânula de Lipoaspiração. Quanto suor eu não economizaria?

A explicação até que parecia ter embasamento. A máquina foi desenvolvida por um Engenheiro Biomédico e pelas suas características até que poderia realmente ser eficaz. Mas o representante me disse que a ação da máquina segundo seu desenvolvedor causaria a quebra da gordura em baixo da pele e esta gordura era absorvida pelo organismo e depois era eliminada na Urina.

Não há como eliminar gordura pela urina. Gordura, assim como proteína são alimentos para nosso corpo e nossos rins são extremamente especializados em filtrar o sangue produzindo a urina de maneira que nenhum componente de importância para o nosso organismo seja desperdiçado. Dizer que a gordura sairia pela urina seria como dizer que os rins entraram em falência, pois somente desta maneira é que deixam de executar sua função adequadamente causando este dano ao corpo, que é a perda de nutrientes.

Quando questionei isto ao representante a sua explicação embasada começou a terminar e não obtive respostas sobre como realmente o processo de eliminação de gordura seria conseguido com seu uso. Com isso já observei que não se tratava de um produto que realmente poderia fazer o que era prometido e conseguir uma redução real das medidas corporais com seu uso não seria algo provável de ocorrer. Lá estava eu novamente lembrando do meu desgaste físico durante a realização de “Lipos”.

Cabe ressaltar ainda que hoje em dia, o mesmo equipamento é vendido, e anunciado em revistas, prometendo obter os mesmos resultados já descritos, mas de uma forma um pouquinho diferente. Hoje se diz que a eliminação da gordura, após sua quebra pelo aparelho, se faz pelo Fígado, não mais pela urina, que metaboliza a gordura eliminando-a. Mudou a cara, mas ainda assim a explicação não é convincente. O fígado é muito especializado, sim, em metabolizar gorduras, além de outras tantas substâncias, mas sendo a gordura um alimento, ao ser metabolizada no fígado ela não será desperdiçada, será reutilizada na forma de alimento produzindo energia. Energia produzida no nosso corpo ou é queimada ou é depositada sob a forma de reserva. Ou seja, ou queima ou vira gordura.

Como pode uma máquina desta reduzir efetivamente medidas de uma pessoa se a gordura será redepositada pelo organismo?

Talvez isto seja possível, talvez haja uma diminuição das medidas da área onde a aplicação for feita. Se a máquina realmente for efetiva em quebrar a gordura que está abaixo da pele esta gordura livre será reutilizada pelo corpo. Se por ventura o organismo da pessoa ”resolver depositar” esta gordura em outro lugar que não seja a área submetida ao tratamento poderemos ter uma redução real das medidas da área tratada, mas isto não significa que houve a perda do excesso de gordura, e sim uma redistribuição da mesma. Resta torcermos para que o organismo “resolva” depositar esta gordura em um local que não incomode muito.

Este tipo de coisa é muito comum hoje e somos bombardeados diariamente por informações muitas vezes convincentes que nos fazem crer que a ficção é, muitas vezes, possível de se tornar realidade.

Uma prova disto: Há algum tempo um indivíduo encaminhou um projeto de lei ao congresso brasileiro muito interessante. Neste projeto, que foi submetido a análise do Conselho Federal de Medicina, era proposto uma lei que obrigaria uma pessoa que desejasse realizar uma Cirurgia Plástica apresentar atestado de antecedentes criminas e ser submetida a um processo de identificação prévia e posterior ao tratamento além de ser fichada em um arquivo federal.

Segundo a grande mente idealizadora deste projeto de lei, esta norma visaria evitar que Bandidos fizessem uso das novas inovações tecnológicas da Cirurgia Plástica para fazerem a troca de sua identidade, o que favoreceria que estes se mantivessem foragidos da justiça.

Só posso crer a Sra S.R.M.M.A.M, secretária de assuntos legislativos do Ministério da Justiça, tenha assistido Face Off em 1997, e ficou até 2002 elaborando este projeto de lei tão importante para o Brasil. O mais incrível é imaginar como é possível uma pessoa com um nível intelectual tão elevado acreditar em ficção científica.

O melhor de tudo foi a resposta do CFM frente a solicitação do congresso. Veja na íntegra esta resposta.

Por mais que estejamos evoluídos não existe tal fenômeno. Não é possível modificar um corpo de maneira que a identidade da pessoa se perca. O cirurgião plástico trabalha com o que a pessoa possui, não há como criar. Modificar é possível mas não há mudanças tão drásticas a ponto de que a pessoa não seja mais reconhecida.

Algumas cirurgias promovem mudanças grandes a fisionomia do paciente, mas mesmo estas não geram a perda da personificação de alguém. Não há como o nariz de uma paciente ser feito igual ao nariz de uma atriz ou modelo, ou coisas do gênero. Uma pessoa idosa com muitas rugas e sinais de envelhecimento quando submetida a uma cirurgia de face irá sofrer um rejuvenescimento mas será a mesma pessoa de antes, mais jovem por ter perdido os sinais de envelhecimento, mas não será outra pessoa. Seria vulgarmente dizer que será a mesma pessoa, não será mais bonita nem mais feia, apenas mais jovem.

Assim, se você deseja realizar uma cirurgia plástica é preciso estar ciente de que a Medicina possui limites. Nem tudo o que está escrito em jornais e revistas é uma verdade. Nem sempre os anúncios de alguns profissionais que prometem ser melhores que os outros porque usam uma técnica “X” ou “Y”, ou por usarem a máquina de milagres os resultados prometidos serão obtidos.

É preciso submeter a uma análise profunda as informações antes de tomá-las por verídicas. Nem sempre o caminho mais fácil é o melhor caminho para se obter o resultado desejado, geralmente este é o caminho mais improvável de se obter isto.

Consulte fontes sérias, seguras, com informações científicas verdadeiras quando desejar tirar dúvidas sobre alguma coisa. Sempre pesquise antes e veja se há fundamento naquilo que lhe é proposto quando optar por um ou outro profissional ou serviço.

Dimensionar o desejo e a expectativa frente ao resultado que será obtido com a cirurgia também é algo fundamental. Não há como obter um milagre e muitas vezes o que é possível ser obtido não corresponde ao desejo real do paciente e isto causa descontentamento com o resultado da cirurgia.

Tenho certeza que quando um paciente é bem orientado durante seu preparo para a realização de um tratamento, quando sua real expectativa é bem dimensionada os resultados obtidos com a cirurgia plástica são realmente dignos de ficção cientifica pois a repercussão destes em termos de melhoria de qualidade de vida do paciente é algo muito grande.

E para finalizar só um comentário sobre o projeto de lei que descrevi acima: No Brasil os maiores criminosos que existem não precisam de cirurgia plástica para esconderem sua identidade, a grande maioria até gosta de se mostrar na televisão, e isto nem é preciso pois mesmo todo mundo sabendo que o individuo é bandido não irá acabar sendo preso mesmo, por isso não precisa nem ficar foragido.

 

Dr. Iversen Ferrante Boscoli